Aos olhos da miséria através dos olhos de uma favelada




 Os favelados aos poucos estão convencendo-se que para viver precisam imitar os corvos. Eu não vejo eficiência no serviço social”.










Com esta passagem, apresento-lhes a escritora Carolina Maria de Jesus, autora do best-seller Quarto do Despejo.



Com esta passagem, apresento-lhes a escritora Carolina Maria de Jesus, autora do best-seller Quarto do Despejo.
Alias você sabe quem foi esta mulher?
Você já ouviu falar da obra Quarto do Despejo?

Em 2018, ano que completaria 104 anos, o que podemos aprender com ela sobre as mazelas das periferias brasileiras?

O que posso dizer é que Carolina Maria de Jesus está em eventos literários, em debates públicos, em peças de teatro, no cinema, em letras de música, vira e mexe também na imprensa, mas pouquíssimas pessoas sabem da sua importância, o que ela foi capaz de fazer para que fosse possível conhecer a fundo a periferia que até então não passava de um lugar sem horizonte algum.

É necessário humanizar a figura de Carolina de Jesus, tentando desvinculá-la de um mito. A história mais conhecida é de que no final da década de 1950, o jornalista Audálio Dantas se deparou com uma mulher negra brigando com marmanjos, que insistiam em ocupar o parquinho das crianças na favela do Canindé, zona norte de São Paulo, e depois de uma breve conversa, ficou sabendo que aquela mulher era nada mais que Carolina Maria de Jesus, que trabalhava na maior parte do tempo como catadora de papel, e que criava sozinha três filhos pequenos, era autora de dezenas e dezenas de cadernos. Entre eles, um diário extensíssimo, que, editado por Dantas, virou o livro Quarto de Despejo.

Com o lançamento do livro, ocorrido na década de 1960, onde foi vendido cerca de 10 mil cópias em uma semana somente na cidade de São Paulo, do dia para noite a figura única, Carolina começou a ser requisitada por todos. Durante este período viveu dias intensos, sendo que a sua obra foi traduzida em mais de duas dezenas de línguas, chegando a Europa, Ásia, América Latina. Acabou por falecer em 1977 no interior de São Paulo em perfeito esquecimento.

O cotidiano da vida na favela do Canindé – cujo local é o verdadeiro quarto de despejo ao qual deu o nome do título do livro narrado por Carolina de Jesus é permeado de relatos de violência, doenças e fome, a fome que, logo de início, é definida como a escravidão dos tempos modernos. Mas também é cheio de suas reflexões sobre o Brasil e a vida da mulher negra.
No Brasil, o relato literário recebeu críticas e comentários de escritores e intelectuais como Sérgio Milliet, Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira. No exterior, Carolina foi recebida com entusiasmo por Pablo Neruda e Octavio Paz.

Carolina, ao contrário do que se pensa, não nasceu intelectualmente em 1960, com a publicação de seu livro. Assim, a biografia revela textos e matérias de jornais em que Carolina de Jesus já aparecia em 1940: “Ela fazia uma ronda pelas redações e rádios, apresentava-se como 'Carolina Maria, a poetisa negra', e ia oferecendo seus textos para publicação. Muitas vezes, era olhada de forma enviesada, tratada com desdém, mas teve alguns sucessos. E, quando não teve sua produção publicada, acabou virando, algumas vezes, pauta dos jornalistas”.
Com o lançamento de Quarto de Despejo, em 1960, a recepção calorosa do livro veio acompanhada também de alguns narizes tortos, que, ao longo do tempo, foram minando a projeção de Carolina. Ela passou a ser conhecida como língua de fogo, defendia em entrevistas a reforma agrária, fazia elogios à revolução cubana e, praticamente sem estudos formais, despertou inveja.

Além de o Quarto de Despejo, os livros subsequentes Casa de Alvenaria (1961) e Pedaços de Fome e Provérbios (1963) continuaram a retratar a nova fase, agora morando em um bairro de classe média de Santana, e posteriormente isolando-se em uma chácara na região de Parelheiros extremo sul de São Paulo. A história de Carolina, para além de seu sucesso, é mesmo um resumo da desigualdade brasileira. Hoje seria considerado que ela teve sorte na vida.

Nascida em Sacramento, no estado de Minas Gerais, em 1914, num local que ainda recendia (e de fato vivia) a lógica da escravidão, Carolina Maria de Jesus sempre se enxergou como uma criadora e perseguiu essa imagem. Sem nunca esquecer que seu livro mais famoso foi dos maiores best-sellers do Brasil e hoje circula por 46 países, em 16 idiomas, tem três edições em Cuba, quatro no Japão, despertou um projeto de filme nos Estados Unidos – abortado quando a autora morreu – sendo um testemunho literário exato da vida de uma mulher negra.

Graças às letras, o vocabulário peculiar e único, Carolina deu voz para as pessoas que moram em periferias.  Hoje, as redes sociais, a internet contribuiu para a democratização para o acesso a informação, só que nem sempre foi assim. Sem o esforço da autora isso não seria possível.

É imprescindível que a riqueza de informações nua e crua de uma periferia (hoje constantemente chamada de “comunidade”) nem sempre esteve ao alcance de todos, era distante dos olhos dos governantes e da sociedade elitizada, que muitas vezes não queriam enxergar, fingindo que nada ali tinha. Foi necessário que uma moradora, uma mulher negra, pobre elevasse o “tom” para que finalmente algo pudesse acontecer. O que antes parecia um verdadeiro depósito de pessoas, um amontoado de desejos sem esperança, a autora conseguiu trazer este debate a tona.

Mesmo depois de anos de lançado, pela fase de ostracismo, sendo vista apenas como um mero objeto de artigo de consumo, no qual as pessoas só queriam ver e conhecer, seu papel de disseminação de informação ajudou a moldar e a conhecer a fundo o interior das favelas. Foi possível olhar para as pessoas e enxergar que ali residem desejos e eles só precisam e querem ser vistos.




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